
Utilizando uma linguagem informal estilística própria do jornalismo e da fala cotidiana, Lima Barreto soube como expressar suas idéias de maneira mais verdadeira do que muitos escritores souberam e apesar da distância entre épocas.
Afonso Henriques de Lima Barreto era mestiço e de origem humilde. Nascido no Rio de Janeiro, em 1881, fez parte dos estudos preparatórios no Colégio Pedro II. Ingressou na Escola Politécnica, que abandonou antes da formatura para assegurar o sustento no funcionalismo público. Mulato e socialista, dedicou-se de forma polêmica ao jornalismo e à literatura de crítica social. Seu pai era alcoólatra e foi considerado louco e ele próprio esteve internado em casa de desajustados mentais.
Em 1905, tornou-se jornalista do “Correio da Manhã”; quatro anos depois publicou em Portugal “Recordações do escrivão Isaías Caminha”. Publicou “Triste Fim de Policarpo Quaresma” em 1911.
Em 1914, foi internado pela primeira vez num hospício e em 1920, candidatou-se, sem sucesso à Academia Brasileira de Letras. A boêmia e o alcoolismo pareçam não ter prejudicado seu trabalho intelectual, mas o levaram à morte prematura, em 1922, aos 41 anos. Passou por grades desenganos e humilhações.
Policarpo Quaresma
O livro “Triste fim de Policarpo Quaresma” revela com clareza o patriotismo, incorporado pelo personagem principal. Ao mesmo tempo que disseca o ufanismo exagerado de um patriota exaltado, satiriza o Brasil e suas particularidades. Mas, como todo ser “diferente”, Policarpo caminha do sonho para a realidade diante das forças maiores da corrupção, do egoísmo, da ambição, do poder e da injustiça. “Morre” duas vezes, antes e depois de morrer, pois pior do que a própria morte, é a morte das crenças e das convicções.
A realidade brasileira descrita no livro permanece bem atual. Marco na Literatura brasileira, o livro rompeu com o modo artificial e erudito de escrever, dominante na época em que foi escrito.
O autor nos mostra também as belezas brasileiras, em simples descrição do visionário, quando exemplifica seus melhores lugares, seus melhores escritores, suas melhores dádivas, etc. Consegue demonstrar de modo extraordinário o valor brasileiro.
Quaresma é relatado como funcionário público. Homem de hábitos conservadores era um solteirão e vivia com sua irmã Adelaide num bairro do Rio de Janeiro. Além de dedicado ao serviço público, era patriota exaltado, possuindo uma biblioteca só com obras sobre o Brasil. De repente, viu-se assaltado por uma obsessão: salvar o país por uma reforma nos costumes.
Essa aventura acabou por metê-lo num sanatório. Nessa altura da vida, Quaresma vivia rodeado por funcionários públicos sem consciência moral ou profissional.
Ao sair do hospício, Quaresma já não pensava em reformar os costumes nacionais. Agora acreditava que a solução para os males do Brasil viria de uma reforma na agricultura. Muda-se então para o Sítio Sossego, mas é vencido pela má qualidade do solo, pela política local e pelas saúvas. Depois de perder tudo, volta para a capital e combater a Revolta da Armada.
Então se alista no Exército, a favor de Floriano Peixoto, comandando um batalhão de quarenta soldados, tornando-se florianista. Obtém uma entrevista com o presidente e se decepciona com seu jeito displicente e preguiçoso. Abafa a revolta e é enviado a Ilha das Enxadas, com a função de carcereiro. Uma noite, diversos prisioneiros são fuzilados por ordem expressa do Presidente. Quando Quaresma toma conhecimento, envia uma carta censurando o Presidente e depois e preso e enviado para a Ilha das Cobras, tendo o mesmo destino daqueles por cujos direitos protestava.
Contexto histórico
Panorama mundial
→Pré-guerra;
→Partilha da África;
→Freud e a psicanálise,
→Primeira guerra mundial (1914-18);
→Revolução russa (1917);
→Vanguardas artísticas.
Panorama brasileiro
→A “República da espada”, pois o poder foi assumido por militares;
→Governo de Floriano Peixoto
→Revolta Federalista (RS),
→Revolta da Armada (RJ);
Elementos da narrativa
Personagens Principais
Policarpo Quaresma: personagem principal, pequeno, magro, ingênuo, sonhador, honesto e desinteressado, vestia-se sempre de fraque, usava uma cartola de abas curtas e muito alta;
Ricardo Coração dos Outros: trovador e seresteiro, baixo, magro, pálido, de outra região do país; e, por ser humilde, era desprezado pelos demais, que formavam a “aristocracia do subúrbio”;
Adelaide: considerada pelo narrador uma “bela velha” de cinqüenta anos, era a típica solteirona de outros tempos sem anseios amorosos e acomodada ao lar, dedicada a cuidar do irmão, o homem da família;
Olga: afilhada de Quaresma, muito viva, habituada a falar alto e desembaraçadamente e dona de um olhar luminoso;
Albernaz: general leal, bom, generoso. Seu único defeito era a pretensão de ascencender socialmente;
Ismênia: filha de Albernaz, bonitinha, amorenada, traços acanhados, nariz malfeito, cabelos longos morenos e belos, nem muito baixa, esbelta, de indolência de corpo, de idéias e de sentidos.
Personagens Secundários
Cavalcanti: dentista, noivo de Ismênia;
Anastácio: fiel servidor de Quaresma há trinta anos e conhecedor de fatos da história do Brasil, como testemunha ocular. Na qualidade de ex-escravo de fazenda é ele quem equilibra a cultura a cultura livresca de Quaresma, com o seu conhecimento vivo da terra;
Maria Rita: ex- escrava africana e antiga lavadeira da família de Albernaz;
Caldas: contra-almirante, a quem foi dado comandar um navio inexistente;
Bustamante: major cuja preocupação central era conhecer a legislação que regeria sua aposentadoria;
Dona Maricota: esposa de Albernaz, mais jovem do que ele.
Espaço da narrativa (3 exemplos, página)
“(…) ia pisar a soleira da porta de sua casa, numa rua afastada de São Januário”;
“(…) Não se sabia bem onde nascera mas não fora decerto em São Paulo, nem no Rio Grande do Sul, nem no Pará (…)”;
“(…) Não havia três meses que viera habitar aquela casa, aquele ermo lugar, a duas horas do Rio, por estrada de Ferro após ter passado seis meses no hospício da Praia das Saudades (…)”;
Tempo cronológico(3 exemplos, página)
“(…) Como de hábito, Policarpo Quaresma, mais conhecido por Major Quaresma, bateu em casa às quatro e quinze da tarde (…)”;
“(…) E era assim todos os dias, há quase trinta anos (…)”;
“(…) Afinal a filha do general pôde responder com segurança à pergunta que se lhe vinha fazendo há quase cinco anos (…)”;
Tempo psicológico(3 exemplos, página)
“(…) Veio recordar-se do seu tupi, do seu folklore, das modinhas, das suas tentativas agrícolas – isso lhe pareceu insignificante, pueril, infantil (…)”;
“(…) E ele se lembrava que há bem cem anos, ali, naquele mesmo lugar onde estava, talvez naquela mesma prisão, homens generosos e ilustres quererem melhorar o estado de coisas de seu tempo(…)”;
“(…) Desde dezoito anos que o tal patriotismo o absorvia e por ele fizera a tolice de estudar inutilidades (…)”;
Aspectos morais
“Triste Fim de Policarpo Quaresma” disseca o sonho de um patriota exaltado, dominado pela idéia de um Brasil acolhedor e amável. Em seu idealismo patriótico, Policarpo Quaresma vê seu país como um recanto de farturas, facilidades, compreensão e amor.
Esta visão orienta o seu projeto de reforma nacional, cujo objetivo era “despertar a pátria do sono inconsciente em que jazia, ignorante de seu potencial, e conduzi-la ao merecido lugar de maior nação do mundo”.
Num primeiro momento, o grande sonhador prepara uma reforma cultural; num segundo, uma reforma agrícola; num terceiro, uma reforma política. Ao fim dessa caminhada ufanista, o país revela-se inóspito, precário, infecundo, cruel, opressor e odioso.
Em outros termos, a narrativa desconstrói o mito romântico de um Brasil superior. Evidencia a distância entre o sonho e a realidade; critica o idealismo inconseqüente, incapaz de enxergar as verdadeiras dimensões do real.
Ao abordar o tema do patriotismo brasileiro, este romance problematiza um dos conceitos mais arraigados do caráter nacional, expondo-o ao ridículo, numa impiedosa anatomia da alma coletiva.
Aspectos sociais
Na análise do sonho patriótico de Policarpo Quaresma, Lima Barreto pôde também abordar alguns subtemas importantes para a formação do seu ideário pré-modernista, como a crítica à posição negativa do brasileiro médio em relação ao colonizador europeu, a exaltação à terra, a idealização da natureza virgem, a paródia da máquina burocrática e a ojeriza contra os falsos artistas. A sondagem do desequilíbrio de Quaresma permitiu-lhe ainda investigar com tintas fortes as alucinações, os desejos e as manias que caracterizam a loucura – retratando tanto os seus aspectos humorísticos quanto os trágicos.
A caracterização do funcionalismo público é um dos subtemas mais interessantes do romance. O próprio Lima Barreto foi funcionário público. Por isso pôde captar os pequenos traços que caracterizam esse tipo de serviço no Brasil, transpondo-os de forma magistral para o plano da ficção.
Com efeito, o perfil dos funcionários públicos do romance, dos quais o mais importante é o próprio presidente da República (também caricaturado, resulta em uma interessante alegoria contra a burocracia, formada por pessoas sem consistência moral ou profissional. Nesse sentido, o livro é uma sátira impiedosa e bom-humorada contra o Brasil oficial, onde dominam generais em batalha(Albernaz) e almirantes em batalha(Caldas).
Outro exemplo de engajamento social é a descrição afetuosa das pessoas humildes, quer nos subúrbios cariocas (início do capítulo II, segunda parte), que na roça (capítulo IV, terceira parte). No primeiro caso, trata-se da descrição do bairro em que mora Ricardo Coração dos Outros, um dos personagens importantes do romance. No segundo, trata-ser do esboço moral de personagens secundários, moradores do sítio de Quaresma.
Tanto em um como em outro caso, deve-se notar o propósito de uma literatura empenhada no registro objetivo e simples da realidade brasileira, com destaque para os seus contrastes e suas desigualdades.
O diagnóstico dos dois “Brasis”, o rico e o pobre é uma obsessão na ficção do Pré-Modernismo, do qual este romance é uma das maiores expressões.
Aspectos econômicos
A maioria das personagens da primeira e da terceira parte do livro pertenciam a classe média ou alta, e as da segunda parte do livro eram de classe baixa.
Aspectos éticos
Do ponto de vista literário, “Triste Fim de Policarpo Quaresma” é um dos grandes herdeiros do Naturalismo em nossa arte, assim como “Os Sertões”, de Euclides da Cunha. Aliás, toda a literatura pré-modernista recebe razoável influência da experiência realista da década de 1880. Este é um dos fatores que explicam a perspectiva dessacralizadora e anti-romântica do livro.
A concepção literária presente em “triste Fim de Policarpo Quaresma” é mais pessoal que a dominante no Naturalismo, que era muito preso à idéia do detalhe científico e da preferência patológica.
Por ser muito pessoal, este romance transmite uma forte impressão da realidade, sem se prender muito aos preceitos do realismo. Apesar disso, lima Barreto ainda trabalha com o conceito de literatura como instrumento de denúncia social, o que às vezes assume tonalidades panfletárias. Isto é, em alguns passos, o narrador toma o partido dos oprimidos, colocando-se francamente contra os opressores. Essa idéia de arte engajada na defesa de princípios humanitários pode ser exemplificada mediante os ataques contra o positivismo republicano e a defesa da massa sofredora, presentes no último capítulo da segunda parte e, de modo geral, em toda a terceira parte.
Foto: Marcelo Cereser


