Agosto 1, 2009...3:38 am

O Pensamento Complexo

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A complexidade é uma palavra-problema e não uma solução, portanto é necessário desfazer duas ilusões que desviam as mentes do problema do pensamento complexo.

A primeira é acreditar que a complexidade conduz à eliminação da simplicidade; a segunda é confundir complexidade e completude. 

 

Inteligência Cega

 

Assim como adquirimos conhecimentos espantosos sobre vários assuntos, a inteligência cega progride ao mesmo tempo. Isso sem dúvida é uma consequência do atual modelo de ensino, que privilegia a especialização ao invés de uma formação mais completa.

A inteligência cega adquire uma forma mecânica e compartimentada, fragmentando os problemas. Trata-se de uma inteligência que elimina todas as possibilidades de compreensão e de reflexão.

Outro problema causado por essa cegueira, é a desorganização do conhecimento. Não saber como separar e unir; hierarquizar e centralizar. Qualquer conhecimento opera por seleção e rejeição de dados, porém a inteligência impossibilita isso.

Esses problemas podem até mesmo ameaçar a sobrevivência da humanidade e a preservação dos equilíbrios naturais, pois estamos nos aproximando de “uma mutação espantosa no conhecimento”, da falta de reflexão dos atos e do predomínio da ignorância até mesmo pelos intelectuais.

 

O Paradigma Complexo 

 

O paradigma complexo valoriza a importância de considerar a multiplicidade para que na desordem máxima, as coisas se organizem, compliquem e desenvolvam. Encontra-se complexidade onde não podemos superar uma contradição, portanto devemos aceitá-la.

O pensamento complexo procura mostrar que os fenômenos não podem ser compreendidos por meio da análise, da fragmentação, mas por um sistema de pensamento aberto e flexível

Cada sistema cria suas própria determinações e próprias finalidades, não apenas no caos e na desordem, mas em processos variados. Constantemente nossas células são renovadas. A degradação e a desordem cooperam de certa maneira para criar vida.

Temos necessidade de realizar descobertas, precisamos ter elementos culturais diversos para que possamos escolher ou refletir. Jamais poderemos escapar da incerteza e saber de tudo, a consciência da complexidade resultará de um conjunto de novas concepções, novas visões que deverão se acordar, se reunir.

 

 A Complexidade e a Ação como desafio

 

 O pensamento complexo provoca a clareza, a ordem e o determinismo, preparando-nos para uma ação mais rica.

A ação é também uma aposta e faz parte de uma estratégia, que por sua vez permite, a partir de uma decisão inicial, construir um certo número de cenários para a ação. Cenários que poderão ser modificados segundo as informações que chegarão no curso da ação e segundo os imprevistos que surgirão para perturbar a ação.

Porém, na noção de aposta está a consciência do risco e da incerteza. Toda estratégia, em qualquer domínio que seja, tem consciência da aposta, e o pensamento moderno tem entendido que nossas crenças mais fundamentais são objeto de uma aposta.

A estratégia tira vantagem do azar e utiliza os erros do adversário. O azar não é somente o fator negativo a reduzir no domínio da estratégia, é também a sorte a ser aproveitada.

 

 A complexidade e a empresa – Três causalidades

 

 A empresa é uma realidade complexa, onde não se pode eliminar o acaso, o incerto e a desordem, portanto essa organização deverá passar por uma regeneração permanente, seguindo as seguintes causalidades:

 

 Causalidade linear. Se com tal matéria prima, aplicando tal processo de transformação é produzido tal objeto de consumo, a causalidade é linear, pois tal causa gera tais efeitos;

 Causalidade circular ou retroativa. Uma empresa deve produzir em função das necessidades externas, de sua força de trabalho e capacidades internas de energia. Utilizando a cibernética, pode retroagir para estimular ou desestimular a produção de objetos e serviços.

 Causalidade recursiva. No processo recursivo, os efeitos e os produtos são necessários ao processo que os produz. O produto é o produtor daquilo que o produz.

 

 Epistemologia da Complexidade

 

 O aumento natural da complexidade inevitavelmente conduz à epistemologia da complexidade, que emerge em oposição ao paradigma moderno, fundamentando-se na tríade “distinção-união-incerteza”.

As múltiplas abordagens epistemológicas contemplam aspectos culturais, biológicos, sociais, e psicológicos.

Para criar uma explicação qualitativa do real, a epistemologia da complexidade relaciona os vários aspectos, ultrapassando os limites do projeto e do pensamento moderno.

Assim, a epistemologia da complexidade sugere o diálogo entre os conhecimentos e se trata mais de um desafio do que uma resposta.

 

 Os mal entendidos

 

A fragmentação do conhecimento é um modismo cheio de mal-entendidos dentro da epistemologia da complexidade.

Um desses mal-entendidos é considerar a epistemologia como uma resposta, sem entende-la como uma motivação para pensar e refletir. Na realidade a epistemologia tem um caráter mais explicativo do que normativo.

A complexidade deve ser um substituto eficaz da simplificação, mas também aparece como uma procura viciosa da obscuridade, das entrelinhas e do não-dito.

Outro mal-entendido da complexidade é conceber um incontornável desafio que o real lança a nossa frente. A complexidade aspira ao conhecimento multidimensional e interdisciplinar, surge como dificuldade, como incerteza e não como clareza ou como resposta. Não pretende fornecer todas as informações sobre um fenômeno estudado, mas respeita os aspectos biológico, sócio-cultural e os demais fenômenos sociais.

 

 Falar da Ciência 

 

A complexidade se apresenta como um caminho epistemológico capaz de provocar uma reflexão no campo científico a partir de sua própria crise de paradigmas.

A visão simplificadora do conhecimento acabou por limitar o próprio conhecimento, já que os problemas modernos não são disciplinares, mas multidisciplinares e planetários. Porém, a epistemologia da complexidade pode redimensionar os aspectos ligados à construção do conhecimento, ampliando-os e permitindo uma visão baseada na superação da fragmentação.

Só uma epistemologia da complexidade poderia reconduzir as ciências para um fundamento, ainda que esse fundamento não seja a assimilação de um modelo de explicação absoluta e unificadora, mas uma fonte inesgotável de incerteza.

 

 Paradigma e Ideologia 

 

O paradigma e a ideologia traduzem as realidades do mundo exterior e interior. A cooperação desses mundos nos motiva a criar pensamentos complexos. É por isso que a complexidade é um produto da subjetividade.

Um paradigma é um tipo de lógica (inclusão, conjunção, disjunção, exclusão) entre um número de conceitos ou categorias e favorece certas relações em detrimento de outras, por isso um paradigma controla a lógica do discurso. O paradigma é uma forma de controle da lógica.

A palavra ideologia tem um sentido totalmente neutro, é pura e simplesmente um sistema de idéias. Quando falo de ideologia, posso ser levada a falar de uma doutrina, uma teoria ou uma filosofia, porque todas são sistemas de idéias.

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