
A natureza instintiva do pensamento humano faz com que nos custe tanto perceber que a linguagem é um instinto também. O verdadeiro motor da comunicação é a fala, portanto a escrita é apenas um acessório opcional. Quando compreendemos as frases, o fluxo de palavras é transparente e entendemos o sentido de modo tão automático que podemos esquecer que um filme é falado numa língua estrangeira e está legendado. A naturalidade, a transparência, o caráter automático são ilusões que escondem um sistema de grande riqueza e beleza.
A língua não é um simples repertório de respostas, pois o cérebro contém um “programa” que constrói certo conjunto ilimitado de frases a partir de uma lista finita de palavras. Esse programa pode ser denominado “gramática mental”.
As crianças devem desenvolver essas capacidades complexas rapidamente sem qualquer instrução formal e, à medida que crescem, dão interpretações coerentes a novas construções de frases que elas nunca escutaram antes e devem estar equipadas de modo inato com um plano comum às gramáticas de todas as línguas, uma Gramática Universal, que lhes diz como extrair padrões sintáticos da fala de seus pais.
Mentalês
Linguagem e pensamento não são a mesma coisa. Nós certamente não pensamos em nossa língua nativa. Toda uma seqüência de decisões demoraria um bocado se fosse articulada sentença por sentença em nossa língua nativa. A língua do pensamento seria essa espécie de mentalês, que nos diferencia dos animais e das máquinas.
As línguas estão organizadas mais ou menos como as cores e as palavras diferem muito para cada tom de acordo com os gostos, pois o reconhecimento da cor pode ser diferente.
As cores são resultado da luz, que é o conjunto de todas as cores e nós vemos essas cores aparecerem quando são refletidas pelos pigmentos dos objetos. Por isso se pode dizer que quando um objeto é vermelho na realidade ele é todas as cores menos vermelho, porque é essa cor que ele reflete. Na verdade todos os seres humanos usam as mesmas paletas para identificar as cores, começando pelas mais básicas. A maneira como enxergamos as cores determina como aprendemos as palavras para elas e não o contrário.
Um modelo mental é uma representação interna de informações que corresponde analogamente com aquilo que está sendo representado. Portanto, traduzir o mentalês só é possível quando compreendemos a cadeia de palavras de um idioma.
Como a linguagem funciona
A linguagem atua internamente como processo de conhecimento, por não ser apenas um instrumento de comunicação, mas um instrumento para socialização. Também é responsável pela construção dos nossos conhecimentos e ao mesmo tempo a linguagem entra em ação no momento em que recordamos um evento, uma informação, um fato, ao evocarmos uma palavra ou realizarmos uma tarefa, porque estamos sempre utilizando o conhecimento verbalmente ou escrito. Todo nosso arquivo tem a ver com o que é relevante e significativo para recordar, evocar, falar e usar. Tudo o que temos armazenado na memória está armazenado em forma de texto, em forma de discurso. Há uma grande abundância de dependências na língua, cobrindo longas distâncias, muitas vezes lidando com o que mecanismos de cadeias de palavras não podem fazer.
Quando as pessoas aprendem uma língua, aprendem como ordenar as palavras, decorando as categorias lexicais (substantivo, verbo etc). Há também certo esquema ou plano geral da frase que coloca cada palavra num lugar específico. Se um mecanismo de cadeias de palavras for planejado com suficiente inteligência, pode dar conta desses problemas.
Os sons do silêncio
A percepção da fala é um instinto da língua, pois não precisamos de luz para perceber que outra pessoa está falando.
O som nada tem de semelhante com a fala, mas seus tons seguem os mesmos contornos que as bandas de energia das frases que dizemos.
Ao escutarmos uma fala, os sons propriamente ditos entram num ouvido e saem por outro; o que percebemos é língua.
Toda fala é uma ilusão e mesmo a sequência de sons que acreditamos escutar dentro de uma palavra é ilusão, pois escutamos a fala como um encadeamento de palavras separadas, mas essa separação não tem um som, ninguém a escuta e a informação sobre cada componente de uma palavra se espalha por ela mesma.
Na onda sonora da fala uma palavra segue a outra sem interrupção; não há pequenos silêncios entre uma palavra e outra, diferente do que acontece com os espaços em branco entre as palavras escritas.
Torre de babel
As línguas diferem entre si de modo ilimitado e imprevisível. Ao observarmos a gramática de qualquer idioma encontraremos inúmeras idiossincrasias, pois em cada continente existem algumas particularidades gramaticais em cada idioma.
Por outro lado, é possível que todas as línguas tenham surgido de uma única, pois há grandes semelhanças entre elas. Nenhuma língua forma sentenças interrogativas invertendo a ordem das frases; geralmente o sujeito é posicionado antes do objeto e os verbos com seus objetos tendem a ser adjacentes. Também sempre haverá uma palavra para indicar que a cor de determinada coisa é amarelo ou verde.
As línguas refletem os pensamentos dos falantes e a todo momento novas palavras surgem, o que modifica os idiomas. A formação de diferentes línguas é paralela e depois que essas línguas se esgotarem, nunca reaparecerão.
Gramática / Genes
O instinto da linguagem esta incorporado no cérebro, que deve ter sido preparado para essa função pelos genes que o construiu, mas só a presença, o simples fato de ter esse gene não possibilita a fala por si só.
Qualquer gene defeituoso prejudica a gramática, mas isso não significa que um único gene controla a gramática. O que fica prejudicado é a capacidade de se comunicar normalmente.
A região que tem haver com a construção da linguagem, parece se encontrar no hemisfério esquerdo do cérebro, como mostram os estudos de Broca, relacionados com afasia.
Segundo Pinker, os genes da gramática são como pedaços de DNA que determinam sequências que compõem proteínas ou desencadeiam a transcrição de proteínas em certos tempos e lugares do cérebro, que guiam, atraem ou unem neurônios em redes que, em combinação com os ajustes que ocorrem durante a aprendizagem, ”são necessárias para computar a solução de algum problema gramatical (como escolher um afixo ou uma palavra).”
Craques da língua
Os craques da língua são personagens que se acham donos dos idiomas ou que cobram dos outros um uso improvável e obsoleto e que não cansam de anunciar a decadência. São os defensores nostálgicos de um padrão que eles mesmos não conseguem praticar e cuja relevância não passa de um mito ou de uma fantasia. Suas fraquezas decorrem de dois pontos cegos. Um é a grosseira subestimação dos recursos linguísticos das pessoas comuns, o outro ponto cego dos craques da língua é a sua completa ignorância da moderna ciência da linguagem.
Observador: gosta de passar o tempo falando da origem dos termos e até mesmo cria essas origens. Usa a língua corretamente, não aprecia mudanças, mas se adapta depois de um tempo.
Temperamental: especializado em denunciar a ruína de uma língua por causa da ignorância dos falantes. Demonstra erudição, mas não acredita na capacidade dos falantes comuns. Dedica-se a combater erros graves, mas acaba sempre derrotado pelas gírias e pela moda do gerundismo.
Animador obcecado por trocadilhos, anagramas e outros artifícios. A língua para ele é um jogo permanente de palavras cruzadas. O simples uso de uma língua para se comunicar não lhe parece normal. Deseja que todos explorem a língua e é um criador de gírias.
Design da mente
A linguagem é a parte mais acessível da mente, portanto as pessoas estudam a linguagem na esperança de compreender a sua própria natureza.
A evolução provocou adaptações que tornaram o cérebro humano capaz de se adaptar aos desafios do ambiente e faz com que as informações que vem de fora sejam acrescentadas no cérebro.
As aparentes falhas desse funcionamento da mente são resultado do design da mente criado pela evolução. Também há diferenças das condições em que vivemos hoje para aquelas que haviam quando desenvolvemos a linguagem e isso gera uma outra forma de desenvolvimento da mente.
Os principais mecanismos desse processo são a capacidade que a raça humana tem para memorizar palavras novas e a habilidade de articulá-las de maneiras diferentes.
A mente passa também por processos psicológicos como conhecer e aprender, que causam a aquisição de valores e de conhecimentos que conformam a cultura de uma pessoa.